A política atravessa uma mudança profunda na forma de se comunicar. Redes sociais, vídeos curtos e linguagem informal passaram a ocupar um espaço central na disputa por atenção, especialmente entre eleitores mais jovens. Esse movimento não é, por si só, um erro. O problema surge quando o excesso de performance passa a substituir o equilíbrio, comprometendo a credibilidade de quem governa.
A comunicação digital funciona, sim. Mas precisa ser dosada. Quando o humor vira regra, e não exceção, o resultado pode ser engajamento alto no curto prazo e perda de confiança no médio e longo prazo.
Esse contraste fica evidente ao observar trajetórias recentes no cenário nacional e local. Prefeitos como Rodrigo Manga, em Sorocaba, e Emília Corrêa, em Aracaju, adotaram um modelo de comunicação altamente performático, ancorado em vídeos virais, humor constante e linguagem de entretenimento. O alcance cresce, os números sobem, mas a imagem institucional começa a se fragilizar.
No caso de Manga, a associação excessiva ao personagem digital acabou diluindo a percepção de gestor, mesmo com altos índices de engajamento. Já em Aracaju, o estilo adotado por Emília abriu espaço para que adversários transformassem sua própria comunicação em munição política, reforçando uma narrativa de superficialidade administrativa. Não se trata de proibir o humor, mas de compreender que, quando ele domina a cena, a autoridade simbólica se perde.
No campo oposto estão Fábio Mitidieri e Tarcísio de Freitas. Ambos utilizam as redes, mas com um padrão mais contido, focado em entregas, organização e previsibilidade. O resultado é uma percepção pública associada à seriedade e à capacidade administrativa, atributos decisivos quando o eleitor projeta alguém para cargos de maior envergadura.
Essa diferença não é apenas intuitiva. Pesquisas qualitativas recentes do instituto Quaest indicam que, embora políticos de perfil mais performático apresentem números superiores de engajamento digital, a confiança do eleitor tende a se concentrar em figuras vistas como mais sóbrias e consistentes. Em levantamentos desse tipo, Tarcísio aparece recorrentemente associado a atributos como credibilidade, preparo e estabilidade, enquanto lideranças excessivamente caricatas enfrentam maior resistência quando o tema é governo, não entretenimento.
O dado central é claro: atenção não é sinônimo de confiança. Likes não se convertem automaticamente em autoridade política. A comunicação provocativa pode funcionar como porta de entrada, mas, sem equilíbrio, cobra um custo reputacional alto com o tempo.
Em Sergipe, esse mesmo fenômeno começa a se desenhar. Fábio Mitidieri passa a ser percebido dentro desse eixo de gestor técnico e previsível, enquanto Emília Corrêa enfrenta os efeitos colaterais de uma exposição excessivamente performática. O humor continua sendo uma ferramenta válida. O erro está em esquecer que, na política, quem governa precisa inspirar mais segurança do que aplausos.


