Uma eleição para o Senado não é decidida apenas por quem possui mais votos. Em uma disputa com duas vagas, tão importante quanto ser a primeira escolha de uma parcela do eleitorado é conseguir entrar no segundo voto de quem prefere outro candidato. Isso muda quase tudo.
Estrutura pode garantir presença, mas não necessariamente preferência. Uma identidade ideológica forte pode consolidar uma candidatura, mas também dificultar o segundo voto. Ter muitos aliados pode ampliar capilaridade, mas criar conflitos locais. E até uma baixa rejeição pode ser insuficiente quando não existe intensidade eleitoral.
É seguindo essa lógica que a Revista Realce inicia seu raio-X da disputa pelas duas vagas de Sergipe no Senado.
Nos próximos artigos, analisaremos individualmente as principais candidaturas, indo além dos números das pesquisas para identificar forças, vulnerabilidades, oportunidades e, principalmente, aquilo que muitas vezes permanece imperceptível até começar a decidir uma eleição.
Neste primeiro texto, apenas um pequeno aperitivo do que será aprofundado.
Rogério Carvalho
Rogério chega à disputa reunindo ativos difíceis de encontrar simultaneamente em uma candidatura: mandato, protagonismo nacional, forte relação com o presidente Lula e uma ampla rede de prefeitos e lideranças espalhadas por Sergipe.
Sua maior força talvez esteja justamente na combinação entre política nacional e estrutura local.
Mas tamanho também produz responsabilidade. Quanto maior a estrutura construída em torno de sua candidatura e maior a percepção de favoritismo, maior a necessidade de transformar apoios políticos em votos reais. Prefeito apoiando não significa, automaticamente, eleitor acompanhando.
Rogério precisa fazer sua enorme estrutura política chegar até a urna sem permitir que a sensação de vantagem diminua a intensidade de sua campanha.
Rodrigo Valadares
Rodrigo possui talvez o ativo eleitoral mais facilmente identificável da disputa: uma conexão direta com o eleitorado bolsonarista e uma comunicação adaptada à polarização nacional.
Em uma eleição que tende a receber forte influência da disputa presidencial, isso pode lhe garantir um eleitor altamente motivado e criar um piso eleitoral relevante.
Mas sua maior força também estabelece seu principal desafio. Quanto mais Rodrigo se consolidar como o candidato de um campo ideológico específico, maior poderá ser sua dificuldade para conquistar o segundo voto de eleitores que não pertencem integralmente a essa base.
Para vencer, talvez não precise deixar de representar o bolsonarismo. Precise descobrir até onde consegue crescer além dele.
André Moura
André Moura possui aquilo que eleições majoritárias muitas vezes valorizam silenciosamente: estrutura política.
Experiente, articulado e com relações construídas ao longo de anos em diferentes municípios, conhece profundamente a mecânica eleitoral sergipana e possui capacidade de organizar apoios onde uma campanha menos estruturada demoraria meses para chegar.
Seu desafio é outro. Estrutura precisa se transformar em desejo eleitoral. Uma eleição para o Senado não é apenas uma soma de lideranças. É necessário construir no eleitor uma razão própria para escolher aquele nome entre várias alternativas competitivas.
André pode ter caminhos para chegar ao eleitor. A eleição dependerá de quantos desses caminhos conseguirão fazê-lo permanecer na cabeça dele até a urna.
Alessandro Vieira
Alessandro carrega uma característica valiosa em uma eleição tão fragmentada: possui identidade própria.
Sua trajetória política, atuação no Senado e posicionamentos ao longo do mandato fazem com que não dependa exclusivamente da transferência de votos de uma liderança nacional para ser reconhecido.
Isso pode lhe permitir disputar votos em segmentos diferentes e, principalmente, aparecer como segunda opção para eleitores que já possuem um primeiro candidato definido.
O risco está exatamente no inverso. Em uma campanha que tende a ser cada vez mais dominada por grandes estruturas e pela polarização nacional, ter independência política pode ser uma virtude, mas também pode significar não possuir uma onda suficientemente forte empurrando sua candidatura.
Alessandro precisa transformar independência em diferencial, antes que ela possa ser confundida com isolamento.
André David
André David conseguiu construir uma identidade clara em torno da segurança pública, do conservadorismo e de um discurso firme contra a criminalidade.
Em uma eleição fragmentada, ter uma mensagem facilmente compreendida pelo eleitor é uma vantagem considerável.
Seu desafio está em transformar identificação temática em musculatura eleitoral. Uma pauta forte pode fazer um candidato crescer rapidamente. Mas uma eleição para o Senado exige também capilaridade municipal, estrutura, alianças e capacidade de sobreviver à concentração de votos que normalmente ocorre na reta final.
André precisa fazer sua pauta produzir uma candidatura maior que a própria pauta.
Edvaldo Nogueira
Edvaldo possui um ativo que poucos adversários podem reproduzir: uma longa trajetória administrativa à frente da maior cidade de Sergipe.
Isso lhe oferece experiência, conhecimento elevado e um conjunto de realizações que pode ser apresentado ao eleitor.
Mas administrar Aracaju durante tantos anos também produz inevitavelmente desgaste, adversários e avaliações consolidadas.
Seu desafio será fazer o eleitor olhar para sua experiência como credencial para o Senado, e não apenas como capítulo encerrado de sua passagem pela Prefeitura. Em outras palavras: transformar memória administrativa em projeto político novo.
Eduardo Amorim
Eduardo Amorim entra em uma disputa na qual já é conhecido pelo eleitor sergipano e possui histórico de eleições majoritárias, passagem pelo próprio Senado e relações políticas acumuladas durante anos.
Esse recall reduz uma das barreiras mais caras de qualquer campanha: precisar explicar ao estado inteiro quem é o candidato.
Mas lembrança não significa necessariamente intenção de voto. Seu desafio será atualizar sua imagem eleitoral e construir uma razão contemporânea para que o eleitor que já o conhece volte a escolhê-lo em 2026.
Uma eleição de primeiro e segundo votos
Talvez esteja aí a principal diferença desta disputa. Alguns candidatos podem ter um primeiro voto extremamente forte e dificuldade no segundo. Outros podem não liderar grandes segmentos, mas aparecer como alternativa aceitável para diferentes grupos.
E isso torna a matemática do Senado especialmente perigosa.
Rogério precisa converter estrutura e favoritismo em voto. Rodrigo precisa descobrir até onde sua identidade ideológica consegue crescer. André Moura precisa transformar articulação em preferência eleitoral. Alessandro precisa fazer da independência uma força competitiva. André David precisa converter identidade em capilaridade. Edvaldo precisa transformar experiência administrativa em novo projeto. Eduardo precisa renovar seu recall.
Em uma eleição de duas vagas, ninguém disputa apenas contra os adversários. Disputa também para ser lembrado depois que o eleitor já escolheu seu primeiro senador. E talvez seja justamente o segundo voto, aquele sobre o qual hoje quase ninguém fala, que decida quem Sergipe enviará ao Senado.
Nos próximos artigos, a Realce vai desmontar essa eleição peça por peça. Porque pesquisa mostra quem está na frente. Mas compreender como o eleitor constrói seus dois votos pode mostrar quem realmente tem caminho para chegar lá.


