A aproximação de 2027 acende um alerta para Sergipe diante da possibilidade de agravamento dos efeitos do El Niño, fenômeno climático que altera o regime de chuvas e pode provocar consequências significativas para a economia e a população. Com projeções de intensificação nos próximos meses, o cenário preocupa especialmente pela possibilidade de estiagens prolongadas, redução da disponibilidade de água, prejuízos à produção agropecuária e impactos que podem atingir diferentes setores da economia sergipana.
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o El Niño poderá alcançar intensidade muito forte a partir de novembro deste ano. O boletim divulgado no último dia 31 de outubro aponta maior probabilidade de chuvas abaixo da média em áreas do Nordeste entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, provocando alterações na circulação atmosférica e influenciando as condições climáticas em diferentes regiões do planeta.
Em Sergipe, levantamento divulgado pelo Governo do Estado aponta que 57 dos 75 municípios sergipanos apresentam vulnerabilidade de média a muito alta aos efeitos da seca e da estiagem, o equivalente a 76% do território municipal. Além disso, dados mais recentes indicam que 12 municípios estão com decretos de emergência vigentes por seca ou estiagem, com aproximadamente 70 mil pessoas diretamente afetadas.
Um dos principais impactos esperados está relacionado à produção agropecuária, especialmente nos municípios que dependem diretamente da regularidade das chuvas. Culturas como milho, feijão e mandioca podem sofrer perdas de produtividade caso a estiagem se prolongue, comprometendo não apenas a renda dos produtores rurais, mas também a movimentação econômica das cidades que possuem forte dependência dessas atividades.
Na pecuária, o cenário também exige atenção. A redução das chuvas pode comprometer a formação e a recuperação das pastagens, diminuir a disponibilidade de água para os animais e elevar os custos com alimentação dos rebanhos. Em regiões com forte presença da bovinocultura leiteira, como o alto sertão sergipano, essas dificuldades podem repercutir sobre a produção de leite, o funcionamento de pequenas propriedades e a cadeia de beneficiamento de derivados.
Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em setembro, 58 municípios sergipanos apresentavam mais de 80% de suas áreas agropecuárias potencialmente afetadas pela seca.
Outro ponto de preocupação está relacionado à segurança hídrica. A continuidade de períodos com chuvas abaixo da média pode comprometer a recuperação de reservatórios, açudes e outros mananciais, ampliando as dificuldades de abastecimento em comunidades rurais e localidades que já enfrentam limitações no acesso à água.
Entre as regiões acompanhadas com maior atenção pela Defesa Civil Estadual estão o alto sertão, o agreste central e o centro-sul. Municípios como Canindé de São Francisco, Poço Redondo, Porto da Folha, Monte Alegre de Sergipe, Nossa Senhora da Glória, Carira, Tobias Barreto e Poço Verde aparecem entre aqueles que já enfrentam os efeitos da estiagem ou integram as ações prioritárias de monitoramento.
Os impactos também podem chegar ao comércio, aos preços dos alimentos e à economia estadual. Caso ocorram perdas expressivas na produção regional, determinados produtos poderão sofrer pressões de custo e abastecimento, embora os preços finais também dependam da oferta de outros estados, das condições de transporte e do comportamento do mercado nacional.
Diante das projeções, o Governo de Sergipe instalou, em junho, a Sala de Situação do El Niño 2026–2027, reunindo diferentes órgãos estaduais para acompanhar os indicadores climáticos e planejar medidas de prevenção. A estratégia também inclui um Plano de Contingência Estadual, monitoramento dos recursos hídricos e ações voltadas às comunidades mais vulneráveis.
Entre as medidas previstas está a distribuição de 6.200 cestas de alimentos por mês, entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027, para famílias atingidas pela estiagem, além de iniciativas de assistência emergencial e reforço no acompanhamento das condições dos reservatórios.


